Evidência

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E quem diz evidência quer dizer prova. Prova científica. A ciência é o alicerce da Medicina Baseada na Evidência, abordagem clínica que o professor António Vaz Carneiro introduziu em Portugal há pouco mais de uma década e que gera forte discórdia entre a classe médica. Porque desconsidera o doente e menospreza a clínica baseada na experiência, dizem os críticos. Que não, garante o médico. A informação científica credível permite melhores diagnósticos e oferece tratamentos mais eficazes. Beneficia o doente.

Entrevista Célia Rosa

Medicina baseada na evidência (MBE). Vamos falar de arte ou de ciência?

Vamos falar sobretudo de ciência, sendo certo que também falaremos um pouco sobre arte.

E de doentes ou de doenças? A BEM privilegia as pessoas ou os diagnósticos?

Privilegia sempre as pessoas. A BEM utiliza a ciência clínica – estudos efectuados com doentes, e de doentes, sobre situações que são importantes para os doentes – para tratar um doente individual, a pessoa que temos à frente num dado momento. O objectivo principal desta nova abordagem é o doente e a melhoria da sua qualidade de vida.

Em que é que a BEM diverge da medicina convencional?

Foi a ciência que norteou sempre a prática e o exercício da medicina. Mas é preciso que as pessoas compreendam que durante dois mil anos não houve ciência médica – até ao princípio do século XX, tudo o que se sabia era o que constava nuns livros antigos, de Hipócrates (século V a.C) e de Galeno (século II), que se mantiveram absolutamente intactos durante séculos. A ciência médica explodiu entre o final do século XIX e o início do século XX, mas só a partir dos anos vinte e trinta do século passado é que se definiu e estruturou enquanto o conhecimento organizado, primeiro na Europa e depois nos EUA e no resto do mundo. A dada altura, a produção e divulgação de evidência científica de alta qualidade, em quantidades astronómicas, todos os dias e com consistência, criou a necessidade de o médico individual dominar uma série de conceitos que até aí não existiam.

O médico é um prestador de cuidados médicos ou um cuidador de doentes?

O médico é sempre um cuidador de doentes e tudo isto só faz sentido se for para aplicar nos doentes.

Imagine uma pessoa que tem artrite reumatóide e que consulta dois médicos, um que pratica medicina baseada na experiência e um outro, adepto convicto da MBE. Entre a consulta, o diagnóstico e a terapêutica, que diferença notará o doente?

Pode não notar nada. Mas, com uma abordagem baseada na evidência, por certo reparará que o médico justifica as suas opções, sobretudo se o doente for uma pessoa mais informada. Por exemplo, eu diria ao meu doente «para o seu estado de artrite reumatóide vou dar-lhe um medicamento algo perigoso, muito complexo, mas não temos alternativas». Referiria ainda quais os efeitos adversos demonstrados nos estudos e deixava claro que esperava bons resultados, embora não os pudesse garantir. Na abordagem convencional, ouviria o doente, passava a receita, desejava-lhe as melhoras e despedia-me.

Até hoje não encontrei um médico que me despachasse assim. E se tal situação ocorresse eu mesma o questionaria.

E muito bem. Mas é indiscutível que há médicos assim, que continuam a ter essa prática, e também há doentes que não querem saber das decisões que lhe importam.

Fala de doentes que confiam cegamente nos médicos?

Na minha opinião, os doentes que têm uma confiança cega nos médicos não são os melhores doentes. Os doentes que fazem perguntas também são os que têm melhor adesão à terapêutica. São mãos parceiros e também compreendem melhor as limitações e os problemas da prática clínica.

Como nasce a evidência científica em medicina? Não estamos a falar de uma ciência exacta, lida com pessoas e todas são diferentes…

O médico toma decisões clínicas e as decisões clínicas nascem numa intercepção de três universos – a relação com os doentes (a única que existia até há oitenta anos), a evidência científica (que apareceu há uns oitenta) e a gestão dos recursos em saúde. A MBE é um meio explícito, transparente e racional de utilizar os dados científicos no diagnóstico e tratamento dos doentes individuais.

Clínica não é magia

Dizer que a BEM não tem o doente no centro do acto médico é falso?

Absolutamente. A BEM não é uma invenção de académicos iluminados, é uma invenção de académicos iluminados, é uma metodologia científica de apoio à decisão clínica. Para tratar um doente com cancro, por exemplo, precisamos de saber exactamente que tipo de tumor é aquele, quais as medicações que funcionam e, dentro do grupo das que são eficazes, quais as que servem o doente X em particular. Isto só se faz com ciência, não se faz com manias nem convicções. Há ou não há estudos clínicos que demonstraram que num doente com esta doença o medicamento Y funciona? Há? Então o passo seguinte é usar esse medicamento nesse doente.

Quais as mais-valias da BEM para os doentes e para a sua relação com os médicos?

A ciência não é antagónica do humanismo, da ética e da deontologia. O conhecimento é uma mais-valia. A ciência não contribui para a boa relação com os doentes, essa depende sobretudo da formação, da educação e da cultura ética do médico enquanto pessoa e profissional. A BEM tem acima de tudo que ver com o lado científico da prática médica. Para mim, a pergunta mais importante do século XXI para a classe médica é: porque faço isto e não outra coisa qualquer? Ao explicitar as minhas acções de modo transparente e pormenorizado ganho uma dimensão ética, moral e profissional que de outro modo não conseguiria ter.